Me chamam de louco
E eu que no fundo queria até ser mais um pouco
Maluco
Relógio quebrado sem cuco
No violão eu batuco
E no tambor eu dedilho
Hoje sou pai de meu pai e sou filho de meu filho
Sei que viver é uma troça
Mas caminhar me remoça
Pelo caminho que eu trilho
E meu arco-íris enfim terá
Uma palhoça na beira do mar
E uma roça de milho
Me chamam de mestre
E eu que me sinto um tipo de extraterrestre
Estranho
Sem medida e sem tamanho
Eu que me perco se ganho
Eu que por isso não jogo
Sempre respiro melhor
Logo depois que me afogo
Minha dieta consiste
Em um punhado de alpiste
Que eu moo, coo e refogo
Pra aquecer minha voz e cantar
Adeus é triste de ouvir e de dar
Mas não existe até logo
Me chamam de artista
E eu que no fundo prefiro ser só comunista
E flamengo
Sou de arengar, eu arengo
Alô, alô, realengo
Eu sou de Copacabana
Mas eu prefiro morar
Na casa da mãe Joana
Meu coração sobrevive
Pelos amores que eu tive
Minha paixão é cigana
Eu que aprendi, posso ensinar
Me sinto livre pra recomeçar
Uma vez por semana
Me chamam de velho
E eu que me arrisco a pregar o meu próprio evangelho
Profano
Porque meu Deus é humano
Eu sei entrar pelo cano
E saio vivo e ileso
Junto do meu violão
Que eu levo de contrapeso
Pra compensar o vazio
Desse destino baldio
Eu não me sinto indefeso
Não tenho Lua nem bússola pra navegar
Mas eu conheço a sereia que tem no olhar
Um farol aceso
Me chamam de louco!